sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A erudita homofobia.

Esses dias tomei conhecimento do artigo “Ditadura gay à vista...”, escritor por um doutor e professor de Direito da PUC/GO.

(Laerte)


1. Começa com umas linhas sobre etimologia, o autor chega à conclusão de que, sobre LGBTs, o “projeto biológico não deixa dúvida”: “(...) Norma e normalidade se impõem de cara, e o amor entre pessoas do mesmo sexo não é menos estranho que fazer as necessidades pela boca para comer por onde você pensa.”

Deixando de lado a infeliz comparação, que seria essa verdade incontestável e óbvia inscrita na natureza do “projeto biológico” a definir o que é correto (dentro da norma – moral?) e normal e o que não é?

Se a “natureza” serve aqui de parâmetro: (a) o autor comete a falácia naturalista ao querer derivar um dever (apenas existir relação hétero) de um fato (supostamente só existirem na natureza relações entre macho e fêmea); (b) já foram estudados inúmeros casos de relações entre animais do mesmo sexo; (c) o simples fato de estar presente na natureza não implica que seja moralmente correto (o canibalismo, por exemplo). Para ele, contudo, não é “preconceito”, mas “pós-conceitos baseados em juízo fundado” – juízo este falacioso, a-científico, ou seja, pré-conceito. Ahhh, e sejam evitadas quaisquer práticas eróticas diferentes do puro e simples encaixe do pênis na vagina (para procriar, certamente).

Embora, façamos justiça, o autor não fale nada a respeito (para ele, desde que LGBTs sejam e se relacionem de forma invisível está ótimo), é interessante como esse argumento legitima inclusive a escravidão, o machismo, o Holocausto, senão vejamos:

(a) se há uma “norma e normalidade (que) se impõem de cara”, os gregos poderiam escravizar porque, para Aristóteles, a escravidão é algo natural: existem aqueles que nasceram – naturalmente, é claro - para comandar e aqueles que nasceram – naturalmente, ainda aqui - para serem comandados (e não mudou muito a justificação para escravizar negros, índios), afinal se são subjugados numa guerra ou têm menor desenvolvimento tecnológico, são naturalmente inferiores;

(b) Platão considerava as mulheres e os escravos como seres destituídos de razão. É de Aristóteles a frase: “A natureza só faz mulheres quando não pode fazer homens. A mulher é, portanto, um homem inferior”;

(c) para o nazismo, judeus, ciganos, doentes mentais ou aqueles que padeciam de enfermidade, os estranhos, os associais eram inferiores, naturalmente incapacitados para fazer parte da “comunidade do povo”, eram, enfim, “vida indigna de ser vivida”; a Solução final nada mais foi que eliminar esses “inconvenientes”.

2. Acusa o movimento LGBT de apenas tolerar quem lhe é simpatizante e aquele que “não gosta” é taxado de homofóbico, uma “maneira de calar o pluralismo quando se torna incômodo. A turma, na realidade, é homófobo-fóbica”.

Quando não negam a homofobia, esses cruzadistas anti-direitos LGBTs ignoram que homofobia é, resumidamente, preconceito contra LGBTs, equivalente ao racismo, ao machismo/misoginia, à xenofobia, e inclui desde pensamentos, palavras a violência física. Ultimamente, há um movimento, encabeçado por Malafaia, para que homofobia signifique apenas violência física, mas alguém fala que só é machismo/misoginia quando o homem assassina a companheira?

3. Como provas da suposta investida para instaurar uma ditadura gay ele elenca, com destaque em negrito: “o que lhe espera é um Estado policial com leis de exceção, censura, repressão, proteção especial para travesti e lésbica e, se brincar, guarda-costas por sua conta nas noites de paquera. É impressionante!!?? Uma negação total do igualitarismo democrático, com casta privilegiada cheia de vontades, de não me toques e de direitos...”

Bem, que projetos de “censura, repressão”? Acho que o PLC 122, mas já temos refutação fundamentada (aqui e aqui). Ou: que projetos são esses de “proteção especial para travesti e lésbica”? Apenas citar, sem as referências fica complicado.

4. “Ele pode lhe xingar de homófobo, mas você vai para a cadeia se chamá-lo de v... E vejo o dia em que terá de aceitar uma cantada gay para não ir preso por discriminação sexual ou delito dessa natureza.”

Argumentando em cima do absurdo. Viado é xingamento, em regra; homófobo, não. Se a pessoa se sentir ofendida com o título de “homofóbico”, que ajuíze ação por danos morais.


(Laerte)



Mais uma vez, os cruzadistas anti-direitos LGBTs, não importa o grau de instrução, ignoram fatos, ciência, elementos básicos para um debate saudável. Melhor para nós que o nível desse discurso não passe de sumidade e falácias.

Um comentário:

  1. Mas as tirinhas do Laerte estão ótimas... alías ele se vestiu de mulher por brincadeira e gostou tanto que não tirou mais....
    Sou fã desde criancinha

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