segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O PSC e a perigosa utopia da defesa da “família, moral e bons costumes”

Quando a gente fala em "utopia", logo nos vem à cabeça a ideia de uma sociedade perfeita, onde todos amam uns aos outros, vivem em paz, livres de qualquer necessidade ou perigo, injustiça, violência, e, ainda, onde todos partilham dos mesmos valores universais, comuns, inalteráveis, válidos para a humanidade em todos os momentos e em todas as partes desde e para todo o sempre. [1]

A ideia é muito antiga (basta lembrarmos a noção de "idade de ouro", Jardim do Éden, Reino dos Céus no pós-morte) e nos remete a algo bom, mas, ao longo da história, a utopia também foi motivo de muita barbaridade.

Ora, a sociedade perfeita só foi corrompida ou então ainda não foi alcançada por que certas pessoas e suas condutas, práticas nos afastam dela. Como obstáculos que são, devem ser eliminados – o mérito dos fins justificam as atrocidades dos meios.

Isso explica a raiz da tortura, suplícios e pena de morte (lembremos a Idade Média) para adúlteros, ateus, LGBTs, estrangeiros, escravos, judeus, prostitutas (estas até não muito tempo atrás no Brasil poderiam ser estupradas sem problemas, já que não se encaixavam no conceito de "mulher honesta"). Mesmo hoje, a mutilação da genitália feminina em alguns países africanos e criminalização da homossexualidade em mais de 80 países, sendo que em 07 deles a pena é a morte são evidências vivas dessa face criminosa da utopia.

E o que tem tudo isso a ver com o Partido Socialista Cristão?

A inserção do partido, recentemente veiculada, traz a soma “Pai + mãe + amor + filhos = família” como modelo dafamília perfeita.



Foi uma cínica resposta à decisão tomada em maio deste ano pelo Supremo Tribunal Federal, reconhecendo que também casais homoafetivos formam uma família.

Ao dizer que família de verdade é a formada apenas por um casal heterossexual e filho(s), implicitamente diz que são menos dignos todos os outros modelos de família: um casal em que um deles ou ambos seja infértil, uma mãe com o(s) filho(s), um(a) tio(a) que cria o(a) sobrinho(a), dois irmãos ou irmãs solteiros(as) e, muito menos, um casal homoafetivo. Vamos assumir até que eles aceitem as famílias com um único pai ou mãe, mas e as outras formações familiares são "meio-família"? São merecedoras de menor proteção do Estado e da sociedade? São menos dignas? A julgar por isso, 53% das famílias brasileiras são indignas, para o PSC.

Especificamente quanto à família, ficam as perguntas ao PSC e a quem pensa o mesmo do "até que a morte os separe":

a) quantos homens e mulheres adúlteros foram torturados, apedrejados, enforcados para resguardar a instituição “família”?

b) sem qualquer culpa, quantos meninos e meninas frutos de relações fora do casamento, chamados "espúrios", tiveram seus direitos negados (amor, um lar, alimentação, saúde, segurança etc.) pela lei (influenciada pelo dogma religioso de família)?

c) quantas esposas foram estupradas porque não podiam recusar cumprir seu "dever conjugal" de manter relações sexuais com seus maridos?

d) quantas crianças e mulheres foram vítimas de violência doméstica (agressões, estupro, pedofilia etc.) eram e ainda são(!) impedidas de denunciar esses crimes por que o importante é "manter a família unida"?

e) quantos homens e mulheres, mesmo não mais se amando, foram obrigados a conviver entre si e com seus filhos, amargando todos a mais completa infelicidade individual e coletiva, até o fim de suas vidas, já que o divórcio era impensável?

A mensagem implícita é: devemos resguardar a instituição família, nem que para isso o preço a ser pago seja infelicidade de quem a compõe; o importante é tão-só a família, não aqueles que dela fazem parte.

Ao estabelecer um único modelo de família, se ignora que modelos culturais nunca foram absolutos, fixos em todas as épocas. Basta lembrar como varia o modelo de família em milhares de outras sociedades.

Talvez digam: "não me importam as outras sociedades, nossa sociedade ocidental tem com base judaico-cristã". Não discordo, mas: um dia nossa sociedade não aceitava o divórcio, mas hoje já aceita, apesar da ameaça de que a sociedade seria destruída; um dia nossa sociedade marginalizava os filhos fora do casamento... Um dia a sociedade "judaico-cristã" não aceitava o relacionamento homoafetivo, mas muitos países já aceitam união estável, união civil e mesmo o casamento – o Brasil, inclusive. Dizer que esse modelo de família corresponde à nossa "tradição" não quer dizer muito: a sociedade judaico-cristã é machista, racista e homofóbica , o que não faz do machismo, racismo e homofobia coisas boas.

A premiada série "Modern Family" mostra que família é tudo igual, só muda de endereço. 

Se até hoje tanta atrocidade foi cometida desde o começo da história humana para que o modelo de família heterossexual fosse resguardado, como explicar os assassinatos de pais e filhos entre si, as guerras, o Holocausto nazista, a fome, a miséria que nos acompanham há tanto tempo? Os casos Isabella Nardoni e Richtofen, dentre tantos, são provas cabais de que o simples fato de o casal ou o pai ou a mãe que forma a família ser heterossexual por si só não implica que tenham melhor ou pior caráter, que irão criar e educar bem o(s) filho(s) e o mesmo vale para os casais homoafetivos. Sexualidade, seja ela qual for, nada tem a ver com caráter.

Olhando para nossa história - para citar um exemplo extremo: Hitler acreditava que, eliminando judeus, ciganos, LGBTs, doentes etc. estava dando espaço para nascimento do homem perfeito, para a sociedade perfeita -, deixo a cada um julgar a que ponto, no Brasil, pode chegar o fundamentalismo evangélico xiíta de certas figuras na sua hipócrita defesa da família, moral e dos bons costumes. Por que hipócrita? Só para citar um exemplo da conduta "moral", lembro que a bancada evangélica (da qual faz parte o PSC) só não assinou a CPI convocando o ex-ministro Palocci porque a presidenta Dilma atendeu a exigência dela de vetar o kit anti-homofobia

Não passa de mentira as previsões de que aceitar o casamento homoafetivo irá destruir a sociedade, como deixa transparecer este vídeo do PSC. Nenhum dos países cujas leis reconheceram as uniões homoafetivas foi destruído; são países de altos índices de desenvolvimento socioeconômico. A noção de "família, moral e bons costumes" muda com o passar dos tempos, qualquer que seja a sociedade. O fato é que, apesar dos males que ainda nos assolam e que merecem ser eliminados radicalmente, a humanidade nunca esteve tão bem.

No fundo, no fundo, a questão não é a defesa da família (como bem nota o amigo Luiz Coletto, aqui), da moral e dos bons costumes, como desmascara o seriado "Os Simpsons", mas o objetivo autoritário de impor a todo mundo viver de acordo com os valores por eles impostos.

Eu acredito numa sociedade onde muitos dos problemas que enfrentamos hoje (guerras, fome, doenças, violência etc.) podem ser radicalmente diminuídos, resolvidos, mas não acredito que um dia alcancemos a perfeição, que é falsa, já que nós humanos somos imperfeitos. No máximo, podemos agir, individual e coletivamente, para que todos possam ser felizes de acordo com suas escolhas, sem prejudicar os outros, com respeito mútuo.

E, sim, eu acredito na utopia... Nesta utopia:

"A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar." (Eduardo Galeano)

PS: não estou aqui negando o direito de conservadores pregarem o que acham correto, pelo contrário, têm todo o direito de fazê-lo, obedecendo os limites que a lei impõe, contudo nem por isso deixarei de desmascarar a hipocrisia desse discurso quando julgar que devo fazê-lo.
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[1] Sugiro o texto “O declínio das ideias utópicas no Ocidente” (em espanhol), do filósofo Isaiah Berlin.

3 comentários:

  1. É, sobre o assunto família ainda temos muito a considerar de novo para que nossas considerações não se percam.
    Me parece que a família tradicional é o modelo nuclear, mas isso não o torna único e exclusivo. Acho que fiz menção ao tema em um dos meus textos.
    O post ficou ótimo, Thiago!

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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