terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O Brasil da presidenta Dilma e o Brasil de verdade

A certeza que sempre tenho quando leio Ali Kamel dizer que não há racismo no Brasil ou as tolices de Reinaldo de Azevedo e outros é que essas figuras não vivem no mesmo Brasil no qual vivo.


(Campanha da Benetton)


E que desprazer foi o meu ao assistir ao discurso da presidenta Dilma Roussef, na cerimônia de entrega do Prêmio de Direitos Humanos 2011, onde falou sobre a "trajetória complicada dos Direitos Humanos" no Brasil, rememorou a história da escravidão, do preconceito contra índios (embora, na prática, o projeto governista de Belo Monte demonstre que, na prática, o discurso é outro).


Alguns trechos são emblemáticos:
"(...) e há tantas outras discriminações encobertas ou mais explícitas que nós sabemos que existem"
Saber que existe e não combater, sobretudo quando se tem por dever constitucional fazê-lo, recebe o nome de hipocrisia. Onde está o apoio da amplíssima base aliada ao governo para aprovar o PLC 122/2006?
"(...) não vai haver país desenvolvido, não haverá um Brasil civilizado, um Brasil que cada vez mais continuará a crescer e transformar-se numa potência econômica se esse país não respeitar os Direitos Humanos, a garantia da dignidade humana, uma postura da sociedade, obviamente do Estado contra qualquer sorte de discriminação" 
E arremata:
"Nós somos um povo tolerante. Nós não somos um povo que tem por característica a intolerância de qualquer forma – a intolerância religiosa, a intolerância de gênero, a intolerância em relação a opções sexuais ou qualquer outra forma de intolerância."
Povo tolerante, presidenta? Somos racistas, machistas, homofóbicos, além de outras mazelas do preconceito.

Concordo que "não há possibilidade desse país ser uma nação se não for uma nação de 190 milhões de brasileiros", só que a cruel realidade não muda só por que afirmamos que ela seria diferente.

Quanto à intolerância religiosa, de fato não chegamos a episódios sangrentos como se dava entre católicos e protestantes na Irlanda, mas não raro aparecem casos que demonstram, no geral, como sofrem os adeptos da religião espírita e, sobretudo, das religiões afro-brasileiras, como no caso da empregada evangélica que chamou a patroa, umbandista, de "macumbeira safada", do centro de umbanda no RJ que foi depredado a marretadas, do grupo de evangélicos da Igreja Geração Jesus Cristo que invadiram e depredaram um terreiro no RJ (Centro Espírita Cruz de Oxalá)A intolerância religiosa se dá, perceptivelmente, por evangélicos, em grande parte, sobretudo os das igrejas neopetencostais.

Quanto ao racismo, basta lembrar que é algo que foi criminalizado severamente pela Constituição Federal, além disso o recente caso da criança negra expulsa de um restaurante e, desde a edição da lei paulista n° 14.187/10, o número de processos por discriminação aumentou; por fim, o verdadeiro genocídio que vitima a população negra e  pobre em SP com torturas e assassinatos.

O machismo que alimenta a violência doméstica é uma chaga que, segundo dados do Mapa da Violência no Brasil 2010, entre 1997 e 2007, ceifou a vida 41.532 mulheres – índice de 4,2 assassinadas para cada 100 mil habitantes.


Quanto a esses tipos de racismo (religioso e por raça, cor, etnia), a Lei Antirracismo já criminaliza, mas o que pensar das 19 milhões de pessoas LGBTs no Brasil que não estão protegidos por essa mesma lei? Pessoas que, em sua esmagadora maioria, são cotidianamente vítimas de homofobia, que vai desde um risinho de canto de boca, piadinhas até brutais assassinatos, tal qual o que vitimou Alexandre Ivo, uma criança de 14 anos. Em SP, de acordo com esse mesmo levantamento sobre a lei paulista n° 14.187/10, a homofobia lidera os processos por discriminação.

Escalada da intolerância religiosa, genocídio que vitima a população negra e pobre, a homofobia que faz do Brasil o campeão mundial de assassinatos de LGBTs e a presidenta usa a tese do "brasileiro cordial", a mesma que o regime militar usou para torturá-la, afinal subversivos como ela fora fugiam à regra da cordialidade do brasileiro.




Nessa foto do extinto jornal "Última hora", a "terrorista" Vanda, que olhava altiva os militares  quando prestou depoimento, em 2011 baixou os olhos e andou de mãos dadas com o fundamentalismo religioso do Congresso Nacional, sobretudo para barrar os projetos pró-LGBT. 


O ano de 2012 começou e só o tempo dirá se neste segundo ano do mandato da presidenta ela irá implementar a prometida "defesa intransigente dos Direitos Humanos". Eu até poderia dizer "quem viver, verá", mas não posso, por exemplo, assegurar a vida nua das pessoas LGBTs diante da homofobia violenta e assassina.