quinta-feira, 3 de maio de 2012

Os silêncios gritantes de Reinaldo no caso Malafaia

No programa "Vitória em Cristo", veiculado no dia 07/12/2011, o pastor Silas Malafaia afirmou, criticando uso de imagens de santos católicos pela parada gay, que a Igreja Católica deveria "entrar de pau em cima desses caras", "baixar o porrete em cima pra esses caras aprender." A Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (ABGLT) acionou o Ministério Público Federal para apurar se houve, por parte do pastor, incitação à violência homofóbica. A íntegra do vídeo está aqui.*

O  pastor afirmou, em sua defesa, que a fala foi editada e tirada de contexto. Diz ainda que atacou o movimento LGBT porque a Parada Gay "ridicularizou os católicos" - posição que, curiosamente, é o oposto da época que ele defendeu (aos 1'54'') o pastor da Igreja Universal do Reino de Deus que chutou uma imagem de santa católica em 1995.

Em fevereiro deste ano, o Ministério Público Federal, por meio do procurador Jefferson Aprecido Dias, ajuizou Ação civil pública pedindo ao juiz que determinasse que Malafaia e TV Bandeirantes não exibirem comentários homofóbicos ou que incitem violência ou desrespeito contra homossexuais, divulgar mensagem de retratação dos comentários homofóbicos feitos e, ainda, que a Secretaria de Comunicação Eletrônica do Ministério das Comunicação fiscalizasse o programa onde foram feitas as tais declarações.

No último dia 26, o juiz julgou o processo extinto por entender que não havia incitação de violência contra LGBTs.

Não demorou muito para o pastor Malafaia comemorar essa "vitória" e muito menos tempo ainda o nosso maior doxófoso (técnico-da-opinião-que-se-crê-cientista), que posa de jurista, proclamar a "vitória da liberdade de expressão".

Bem, num país onde o futebol é das maiores paixões, vale fazer o alerta: "o jogo só acaba quando termina", diz o ditado popular, no caso, o processo só acaba quando não mais se puder recorrer da decisão. Ainda cabe recurso ao Tribunal Regional Federal da 3ª Região, depois ao Superior Tribunal de Justiça e até mesmo ao Supremo Tribunal Federal.


Sobre as falas do pastor, dá pra defender que ele, em tese, agiu, como debati com o amigo e advogado Paulo Iotti, com "dolo eventual", ou seja, assumiu o risco de produzir o resultado (incitação à violência), ainda que não o desejasse; ou, ao menos, com culpa gravíssima. Além do mais, Malafaia não deixou claro um sentido figurado, metafórico em sua fala. E, como já disse outras vezes, o direito à liberdade de expressão termina quando começa o direito do outro em ter respeitada sua honra, imagem, segurança, vida. 

Passo agora à cereja do bolo.

No artigo do Reinaldo Azevedo sobre a vitória de Malafaia, é muito interessante como ele omite - o que não é surpresa para quem deleta comentários que refutam seus posts - certas passagens da sentença que criticam o pastor (a íntegra pode ser consultada por qualquer um aqui - Processo nº 0002751-51.2012.4.03.6100 - ou aqui: parte I e parte II. O juiz chega a dizer que não viu ofensa à Igreja Católica por parte dos organizadores da parada. Nada que surpreenda.

A seguir, as críticas do juiz:

"(...) Que, inapropriadas [as falas do pastor], de péssima ou infeliz escolha, inoportunas e arriscamo-nos em afirmar contraditórias, para quem prega o cristianismo, não se tem dúvida, e com as quais este Juízo jamais poderá concordar, todavia, como diria Voltaire e muito ouvida nos corredores da PUC enquanto este magistrado ainda estudante: 'posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las'... (...) deixa-se claro, não entender este Juízo como desrespeito aos católicos o emprego de santos na Parada Gay visto que associados ao emprego de cautela com a saúde e em nenhum momento poderia ser interpretada como destinada a uma deliberada agressão à Igreja Católica. Tanto assim, que não se viu nenhum católico saltando do alto de edifícios ou se imolando em praça pública por ver ameaçadas suas convicções religiosas ou mesmo pegando em armas na defesa de sua fé. Aliás, não fosse pelo indignado pastor, que nem mesmo crê em santos, em seu revoltado discurso e tudo isto seria ignorado pela imensa maioria de brasileiros e, evidentemente, esquecido pelos p(?) [palavra cortada]"

Como esclarece uma nota de indispensável leitura da Liga Humanista Secular do Brasil, as imagens usadas são do fotógrafo Ronaldo Gutierrez e foram doadas À organização da parada cuja intenção era "(...) questionar o dogmatismo religioso contrário ao uso de preservativos e que favorece a epidemia de doenças sexualmente transmissíveis";  nenhum momento houve a intenção de desrespeitar a arte sacra católica. Curiosamente, esse uso das imagens é protegido pela liberdade de expressão, mas o pastor Malafaia e Reinaldo Azevedo só lembram esse direito quando é de seu interesse.

E mais uma vez o jornalismo da Veja, desesperado porque está se afogando com água de cachoeira, presta enorme desserviço à sociedade de nosso país.

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* Não se seduzam com o argumento tosco de que, à exceção dos evangélicos, todo o resto do povo de São Paulo deveria estar na parada gay para que se alcançassem os 4,5 milhões de pessoas. Ignora o pastor que a parada, segundo informações da própria secretaria de turismo do estado, é o evento que mais atrai turistas à cidade de SP. Só em 2010, foram 400 mil.

2 comentários:

  1. lamentável que um infeliz deste tipo tenha tanta aparição na mídia.

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