terça-feira, 22 de maio de 2012

A verdade incômoda: o caso Mirella Cunha diz um pouco de nós.


Em uma reportagem para o programa "Brasil urgente", da afiliada baiana da TV Bandeirantes, a repórter Mirella Cunha expõe ao ridículo e calunia um suspeito de ter praticado um estupro. Processo por danos morais e, em tese, crime de calúnia têm vitória certa.



Deixo de lado quem tenha curtido e achado graça no vídeo, atitude tão estúpida quanto chamar de humor o racismo cult do Danilo Gentili, quero aqui tratar de como esse caso, infelizmente, não é algo exótico, incomum. Pelo contrário, ultimamente, nossa sociedade tem se mostrado doente, mórbida quando o assunto é sensacionalismo na mídia.

Trarei dois casos emblemáticos para demonstrar que a revolta - correta, é claro - contra esse episódio esconde, em alguns casos, certa hipocrisia diante de outros casos bem piores.

O primeiro exemplo vem da França. A matéria da BBC “Competidores em programa de TV francesa para infligirtortura” relata a exibição de um documentário de título “Jogo da morte”, exibido pela TV francesa na noite de 17 de março de 2010; a exibição chocou o público francês. Nesse jogo, os participantes acreditavam estar no piloto de um novo reality show, em que eram incentivados pela plateia e por uma conhecida apresentadora de TV a aplicar choques elétricos, até voltagens fatais, em uma pessoa, caso ela respondesse incorretamente a uma pergunta. 

Eram 80 participantes, dos quais 64 aplicaram o nível letal de 460 volts, mesmo quando a “vítima” implorava por clemência ou ficava em silêncio. Contudo, os participantes não sabiam que se tratava, na realidade, de uma experiência: os choques eram falsos e a “vítima” era um ator, que simulava, em gritos a plenos pulmões, a dor. O produtor ressalta: “Eles não estão equipados para desobedecer"; "Eles não desejam fazer isso, eles tentam convencer a figura de autoridade que eles deveriam parar, mas eles não conseguem.” O objetivo era demonstrar até que ponto a televisão influencia as pessoas, podendo torná-las carrascos. Os resultados foram semelhantes ao de uma experiência realizada há cerca 50 anos na Universidade de Yale pelo psicólogo social Stanley Milgram: “Com Milgram, 62% das pessoas obedeceram essas ordens vis. No cenário da televisão, é de 80%”.

O segundo é brasileiro: em Manaus, no ano de 2009, o falecido ex-deputado Wallace Souza era um apresentador famoso de um programa televisivo à la Datena, de grande audiência, em que exibia, com “descarnado e cruento realismo”, os “crimes, assaltos, violações e demais ferocidades cotidianas” com os quais, no Brasil e no mundo, os “canais de televisão utilizam para assegurar seu desejado rating, correspondendo ao mórbido e aos piores instintos do grande público telespectador” (as citações são do belíssimo texto El mundo en que vivimos, de Mario Vargas Llosa). A fama rendeu ao apresentador recorde de votação para  deputado federal por três vezes – ela o levou do “periodismo audiovisual sensacionalista ao da política (ambos não estão tão longe um do outro, afinal)”. As investigações tiveram início após denúncias de um ex-segurança (também ex-policial) do então deputado, em que acusava o então deputado de encomendar os crimes para exibi-los em seu programa

No decorrer das investigações, os crimes só aumentaram: formação de quadrilha (da qual participariam, pelo menos, outros 15 integrantes, dentre os quais um era o próprio filho do apresentador, um coronel, alguns policiais, um prefeito, um vereador e um promotor de justiça), posse ilegal de arma, associação para o tráfico, coação de testemunhas e tráfico de entorpecentes. O deputado foi cassado pelo Conselho de Ética da Assembleia Legislativa do Amazonas. Após ter prisão decretada, foragiu, se apresentou posteriormente à polícia, chegou a ser submetido à prisão domiciliar em razão de um doença que veio a causar a morte dele. O filho do ex-deputado foi condenado à pena de 11 anos de prisão pelos crimes de tráfico de drogas, coação de testemunhas e ainda responde em juízo por 17 homicídios. (informações do especial do Portal Amazonia.com)

Certamente, esses dois casos chocaram você que está lendo, mas a conclusão não pode ser outra: os programas sensacionalistas, que menosprezam suspeitos presos, expondo-os ao ridículo, que mostram corpos de vítimas que acabaram de ser assassinadas (quanto mais sangue e órgãos expostos e espalhados pelo chão, melhor) existem aos montes e têm grande sucesso é porque há um público, igualmente doente, que dá audiência a eles.


Agora eu pergunto: nós, ainda que de vez em quando, não estamos assistindo a esses programas, comprando jornais do tipo "se espremer sai sangue"? Assim agindo, temos a parte  que nos cabe no latifúndio da construção de uma sociedade doente, sedenta de sangue, vingativa e disposta a tudo para ter esses desejos atendidos, nem que seja por meio da tela da TV.

Concluo esse post com um trecho do artigo do Llosa: 

Wallace Souza é um produto do século XXI, no qual a cultura predominante, em grande parte pela miséria que tem gerado a televisão em sua frenética empreitada de conquistar audiência escancarando-os nas telas da vida, destruindo a privacidade, explorando sem o menor escrúpulo as experiências mais indignas e degradantes, tem pulverizado todos os valores, alterando-os, de maneira que ‘divertir’, ‘entreter’, tem passado a ser o valor supremo, a prioridade de prioridades, ainda que, para consegui-lo (...) há que disparar e ferir punhais no próximo. (...) [ele é] um herói, ou um mártir, da cultura que, com ajuda da prodigiosa revolução audiovisual, temos fabricado para nossa época. (...) Agora, a televisão passou a ser a própria vida e nós, seus cúmplices.

13 comentários:

  1. Nossa! Será que essa idiota estudou na vida. Será que ela tem noção do que é ser humano. Se comportou como uma moleca completamente desqualificada pra pegar em um microfone e querer formar opinão. Que mulher inútil...

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  2. Olha, não sou leitor do seu blog, cheguei nele por acaso fazendo uma pesquisa no Google. Mas esse texto me interessou. Infelizmente esse layout de fonte branca em um fundo verde dificultou muito a minha leitura a ponto de pensar em desistir de ler o resto. Mas o texto é bom. Por isso eu copiei e colei no Word pra poder terminar.

    É só uma dica de quem chega até seu blog. Pode ser que muita gente desista por não conseguir ler.

    Independente disso, o texto ficou muito bom.

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  3. Ela é pior que o cara seja lá o que e fez.

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  4. Realmente, me toca muito esse aspecto do tirania popular. Já pensei em redigir algo sobre. Acho que escutei isso uma vez: Platão dizia que muitos derrubam tiranos para instaurar sua própria tirania. Penso que a idéia era mais ou menos essa.

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  5. Lembrei de dois filmes: "assassinos por natureza" e de outro "15 minutos" que trata ficcionamente de falar da mídia americana em busca de mais snague a qualquer custo, criando "psicopatas carismáticos".

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  6. Ainda bem que vocês são humanistas e ainda querem um mundo melhor! Pois imagine se fosse o contrário?
    E a vítima, só protegem o "coitado" do delinquente?
    Ia morar em Marte, aí parabéns por esse blog, foi um dos piores que já vi!

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    1. O cara foi reso e responderá ao processo e só o juiz decidirá se ele é culpado ou não. Ao contrário de você, o juiz, somente após o processo onde analisa as provas, é que julga.

      Ninguém aqui ou que tenha se revoltado com o caso foi pra proteger eventual crime que ele tenha cometido. Isso é questão distinta do desrespeito e humilhação que ele passou na reportagem apenas para ter audiência.

      É um dos piores? Bem, só nesse post foram quase 03 mil acessos em 24h. Se discorda, é direito seu, mas entre isso e refutar oque eu argumentei há longa distância.

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    2. É inacreditavel, melhor (pior), nojento ver gente apoiando essa Mirella Cunha. Ela é, ou deveria ser, uma jornalista, preparada pra dar voz aos dois lados da situação. Mas não só não fez isso, como se prestou a um papel ridículo como há muito tempo eu não via. Botar banca pra cima de um cara algemado dentro de uma delegacia, cercado de policiais? Muito fácil... E ela nem sabia se o cara tinha estuprado alguém ou não! Pelamordedeus, em que fundo do poço chegamos? "Não estuprou, mas pensou em estuprar", esbravejou a jornalista que lê pensamentos. Como alguém dotado de cérebro pode apoiar uma ameba como essa Mirella?

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    3. Nada como a classe e elegância na hora de responder a autêntico boçal.
      Sou graduando de direito e ,ao contrário do nosso amigo reacionário, adorei seu blog.

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  7. Existem milhares de programas sensacionalistas, como esses programas de brigas de família, etc....Mas só estão no ar devido ao grande público que dá audiência quando o assunto é fofoca. Porém, programas jornalísticos devem repensar sobre esse formato, pois os telejornais tem como função informar a população, levar fatos (tudo isso é muito óbvio), e não fazer sensacionalismo pra ganhar audiência, fazendo de uma situação séria, virar brincadeira, pois os mesmos "profissionais" quando se deparam com matérias de pessoas influentes, políticos bandidos, além de traficantes famosos, não agem da mesma forma, isso mostra claramente o abuso de poder, o preconceito e muitas vezes calúnia. Mas acho que como o caso da Mirella Cunha, ela deve sim pagar pelo que fez, mas também toda a equipe responsável que permite as matérias irem ao ar, que são eles: diretor, apresentador (que muitas vezes debocha também), editor chefe, a polícia responsável pelo detento, entre outros. Mas como milhares de coisas, nada acontece com os que ocupam os maiores cargos.

    Enfim, mais uma vez eu digo, ela deve sim pagar pelo erro, mas todos os envolvidos também.

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  8. O acusado deveria abrir um processo de danos morais e tomar uma grana dess picareta

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  9. Parabéns Thiago, pelo texto e pela resposta ao/à Kondde.

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  10. SOCIEDADE, ABRA OS OLHOS,COMUNIDADES AFRO-DESCENDENTES DO BRASIL, NÃO DEIXE ISSO ASSIM... VAMOS PROMOVER UMA AÇÃO PUBLICA, JUNTO MINISTERIO DA JUSTIÇA, PARA PUNIR A BAND, E ESTA REPORTER.

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