terça-feira, 12 de junho de 2012

A segregação racial dos EUA e a “adoção gay” no Brasil

Ano de 1951. Na cidade de Topeka, no Kansas, EUA, vivia uma menina de nome Linda Brown , de 08 anos de idade, que não via a hora de ir para a escola:
(...) quando eu descobri que dia que eu poderia ser capaz de ir para a escola, eu estava emocionada, você sabe. E me lembro de andar sobre a escola Sumner com o meu pai naquele dia e, subindo os degraus da escola, parecia tão grande para uma criança pequena. E eu me lembro de ir para dentro e meu pai falou com alguém e então ele entrou para o escritório interno com o diretor e eles me deixaram sair...  Sentei do lado de fora com o secretário. E enquanto ele estava no escritório, eu podia ouvir vozes e ouvir a sua voz lalterada, você sabe, como a conversa continuou. E então ele imediatamente saiu do escritório, me pegou pela mão e voltávamos para casa. Eu simplesmente não conseguia entender o que estava acontecendo porque eu tinha tanta certeza que eu estava indo para ir para a escola com Mona e Guinevere, Wanda, e todos os meus companheiros. (Grifei) (Disponível aqui)
Por que essa dificuldade? Linda Brown era negra e na Sunmer só estudavam brancos, obrigando Linda Brown a  caminhar 1,16 km para estudar numa escola de negros. Somente quando seu caso chegou à Suprema Corte dos EUA  foi decidido, em 1954, que a doutrina do “iguais, mas separados”, que durou cerca de 60 anos, defendia a ideia de que negros eram inferiores e isso provocava danos emocionais e psicológicos às crianças negras.

A partir desse caso, a segregação racial nos EUA foi sendo gradativamente abolida até sua completa extinção, apesar da ferrenha resistência de quem era a favor de medida tão odiosa.


Mas o que esse caso tem a ver com chamada “adoção gay”, isto é, o direito de um casal homoafetivo adotar crianças?

Bem, dando voz a quem se opõe ao direito de um casal homoafetivo adotar, podemos citar o argumento do vereador Carlos Apolinário (defensor do “orgulho hétero” e crítico feroz da “ditadura gay”) no artigo “Direitos ou privilégios” (FSP, 11/06/2012) - e, conscientemente, deixando de lado  a deturpação do conceito de homofobia, argumento ad terrorem sobre punição de psicólogos:
(...) quando se defende o direito dos homossexuais de gerar uma criança in vitro, algum psicólogo ou juiz já parou para pensar como esta criança se sentirá diante dos seus colegas na escola ou na rua da sua casa, quando ela tiver que enfrentar o mundo, para explicar que está registrada no nome de um casal formado por duas pessoas do mesmo sexo?
Resumindo: a criança vai sofrer discriminação por parte dos coleguinhas e do "mundo" por ter um casal homoafetivo como adotante.

Mas, que discriminação é essa? A velha e conhecida homofobia: a ideia de que lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais (LGBTs) devem ter menos direitos (mas iguais deveres) que os demais só por sua condição. IO grau de manifestação da homofobia varia de xingamentos a brutais homicídios. Sim, a homofobia também atinge a criança adotada, assim como o racismo atingiu Linda Brown. Já pensou se o pai, no mesmo sentido do que diz o vereador Carlos Apolinário, por receio do bullying racista dos colegas e na rua de sua  casa e do "mundo" desistisse de lutar pelo direito da filha?

Chegamos ao ponto da questão: o problema nunca foi a cor negra da pele de Linda Brown, assim como o problema não é a orientação sexual ou identidade de gênero do casal adotante, ele sempre foi o preconceito da sociedade.

Nos EUA, defensores da segregação racial achavam negros inferiores intelectual e moralmente... Passadas algumas décadas, é um negro, formado em Direito na prestigiada Harvard, que ocupa a cadeira de presidente do país.

Aqui, caso nossos políticos se dessem mais ao trabalho de ler estudos científicos e não ficar remoendo boçalidades do senso comum, saberiam, por exemplo, que, segundo a médica e psicanalista Elizabeth Zambrano, fartas pesquisas indicam que 90% das crianças criadas por casais homoafetivos se declaram heterossexuais. (“Ciência e vida – Psique”, Ano II, n.º 16, 2007, Escala, p. 13) - e fica a provocação: se crianças adotadas por esses casais se tornarão gays, como explicar que a esmagadora maioria de LGBTs nasceu em lares heteroafetivos?


Talvez seja pedir demais, então sugiro a matéria "Pais contam como revelaram aos filhos que são gays", onde Teodora, a primeira criança adotada por um casal homoafetivo no Brasil, dá aquele tipo de lição que só crianças são capazes de dar (lembram o garoto e sua inusitada reação ao saber que os dois caras eram um casal gay?): perguntada se se incomodava quando seus colegas riam do fato de ela ser adotada por um casal de dois homens, ela foi categórica: "Não, porque é verdade. E se vocês se gostam, qual o problema? Vai saber se na casa delas os pais gostam das mães".

Vasco  e Dorival, primeiro casal homoafetivo a adotar uma criança (2006)
(Luciano da Matta / Agência A Tarde /  Folhapress)

Em se tratando de adoção, prevalece primeiramente, o melhor interesse da criança. Além disso, não permitir esse direito a casais homoafetivos viola a igualdade assegurada quando o STF reconheceu a união estável a esses casais, com todos os direitos e deveres dela decorrentes, inclusive o direito à adoção.


Negros eram tidos como intelectualmente inferiores, imorais, degenerados por racistas, assim como hoje muito disso é atribuído às pessoas LGBTs (casais interraciais causavam e ainda causam aos racistas o mesmo nojo que casais homoafetivos aos homofóbicos). 


(As citações são argumentos utilizados em processos sobre casamentos interraciais nos EUA)


Assim, como o mundo mudou para proclamar a igualdade entre brancos e negros e ensinar  que racismo é abominável, desde cedo, em casa, deve-se ensinar nossas crianças a respeitar as diferenças, afinal o bullying que filhos de casais homoafetivos vierem a sofrer na escola é culpa de quem o pratica, de quem discrimina e não do casal e muito menos da criança.