terça-feira, 20 de novembro de 2012

A imbecilidade por si mesma: Pondé e os Guarani-Kaiowá

No artigo "Guarani Kaiowá de boutique", publicado na FSP hoje (19/11), Pondé abandona a filosofia de rebeldia sem causa - com tudo e com todos revoltada - e escreve como se jornalista fosse, mais precisamente  como um doxósofo (técnico-da-opinião-que-se-crê-cientista) - e faz companhia a Reinaldo de Azevedo aí! O tema, basicamente, são os membros de uma campanha no Facebook para adotar o nome da etnia "Guarani Kaiowá" no perfil - e estou incluído nesse grupo. 


Faltou ao nosso filósofo o mínimo de senso crítico e visão holística do assunto (essa ausência nada mais prova que a ausência da filosofia mesma!), demonstrando o fast thinking (Bourdieu) de quem não se dá ao trabalho de pensar e parte para a coproverborragia (expelir intensamente fezes pela boca - na falta de termo melhor, criei este há algum tempo). 

Tentamos abordar, com muito esforço, os poucos argumentos destilados em meio às generalizações, falácias ad hominem e ataques pueris:

1. O que ele chama de "parques temáticos culturais (reservas)" dos índios são terras tradicionais por direito a eles pertencentes. E este é um direito originário, ou seja, anterior mesmo à criação do Estado brasileiro, que, por força da Constituição de 1988 e da Convenção 169 da OIT, dentre outros documentos jurídicos, deve reconhecer e preservar esse direito.

2. Depois do texto de Walter Navarro onde ele vociferava "Índio bom é índio morto" (o que lhe rendeu demissão do jornal "O Tempo" e, muito provavelmente, acusação por crime de racismo), esse texto do Pondé também me fez ser transportado lá para a época dos bandeirantes e suas cruzadas exterminando indígenas, especialmente no julgamento moral de que índios são "adultos condenados a infância moral [que] seguramente viram pessoas de mau-caráter com o tempo"

3. Em certo trecho ele afirma que a massa no Facebook que se uniu em torno da causa dessa etnia nada mais é que fiel representação da da banalidade do ridículo, este uma das "caras da democracia", afinal "a mediocridade anda em bando".

A boçalidade da postura de um militante político clássico incomodado com o "sofativismo" (melhor este que ativismo nenhum! E tivemos passeatas em defesa dessa causa) em nada perde para a dos argumentos de Pondé, que pergunta:
O que faz alguém colocar nomes indígenas no seu "sobrenome" no Facebook? Carência afetiva? Carência cognitiva? Ausência de qualquer senso do ridículo? Falta de sexo? Falta de dinheiro? Tédio com causas mais comuns como ursinhos pandas e baleias da África? Saiu da moda o aquecimento global, esta pseudo-óbvia ciência?
Se a união de pessoas - dos mais diferentes estados, cidades, "raças", idades, credos - em prol da preservação dos índios Guarani-Kaiowá é para Pondé um retrato da imbecilidade,  sou um imbecil e permitam-me dele discordar. Vejo, nesse novo microcosmo político que é a internet (e as redes sociais), um espaço para potencializar algo tão esquecido nas relações humanas: alteridade, isto é, importar-se com o outro, com seu sofrimento e, de alguma forma (colocando o nome no Facebook, doando dinheiro ou indo às ruas protestar), se solidarizar com seu próximo. 

Lembro aqui o caso do jovem Oziel (nem irei falar da Primavera Árabe, dos levantes populares atuais na Espanha e Grécia), que necessitava de uma extensa cirurgia para recuperar parte do rosto perdida após a retirada de um câncer. Na internet, em um mês a "imbecilidade" do Facebook, Twitter e afins arrecadou os  R$ 100 mil necessários para a cirurgia. Uma vida recuperada pela alteridade, digo, imbecilidade coletiva.

No caso dos Guarani Kaiowá, o Pondé não se sensibiliza com o fato de que de 2003 a 2010, o índice de assassinatos na Reserva de Dourados é de 145 para cada 100 mil habitantes enquanto no Iraque, o índice é de 93 assassinatos para cada 100 mil, e, se comparado à média do Brasil, o índice de homicídios da Reserva de Dourados é 495% maior; ou que, segundo o Ministério da Saúde, desde 2000, foram 555 suicídios, 98% deles por enforcamento, 70% cometidos por homens, a maioria deles na faixa dos 15 aos 29 anos. Estes e outros dados são do artigo "Decretem nossa extinção e nos enterrem aqui", da Eliane Brum - este sim merece ser lido e divulgado! Sem falar que essa comunidade indígena conseguiu decisão judicial para permanecer nas terras e o procurador da República Marco Antonio Delfino de Almeida ressaltou como foi importante a mobilização na internet: a "mobilização das redes sociais foi definitiva para alcançar esse resultado. Provocou uma reação raramente vista por parte do governo quando se trata de direitos indígenas".



Para Pondé, a tragédia indígena (e dos quilombolas!) no Brasil, de proporções que superam outros países nessa temática, é questão de menos importância, afinal porque se importar com um punhado de selvagens?

Para dar um verniz de filosofia, argumenta que esse grupo que se irmanou aos Guarani Kaiowá ainda vive sonhando que o índio representa o "bom selvagem rousseaniano", que tanto mau nos teria trazido. Não é o meu caso nem certamente de muitos, afinal se fazendeiros pagam jagunços para exterminar os índios, o lado correto para se defender é o da vida, da dignidade desses injustiçados.

De qualquer jeito, a filosofia de botequim do artigo (com esse papo de "imbecilidade coletiva", imbecilidade de massa, ele deve ter buscado inspiração em Ortega y Gasset e Olavo de Carvalho) só precisou de um sopro bem leve para mostrar que, lá no fundo, temos um bandeirante em pleno século XXI que despreza direitos humanos de um dos povos que muito contribuiu e contribui para essa mistura de raças e costumes que faz nosso país tão especial. 

Quanto a mim - e muitos outros, inclusive amigos meus, o que só me dá orgulho - continuarei sendo um imbecil coletivo no Facebook, afinal não quero perder a capacidade de me indignar com as injustiças deste mundo, nem que seja virtualmente, sobretudo quando não posso estar lutando lado a lado desses oprimidos.

PS: posso deixar de me solidarizar só no virtual se Pondé pagar as passagens, moradia e alimentação para eu ir a Dourados, onde trabalharia voluntariamente com o maior prazer na defesa jurídica dos Guarani Kaiowá.

3 comentários:

  1. Desculpa, mas essa novela está virando "Prêmio Vergonha Alheia" seja para ativistas como você, seja para as "press whores" que você citou.

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  2. A novela - recheadas de suicídios, assassinatos e miséria humana - teve até agora um final feliz. Desculpe se penso ser justo lutar pelos direitos deles.

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  3. Cara, é muito cômico e revoltante ouvir as imbecilidades do Pondé!
    Este teu artigo é de 2012! E este Pondé ainda está por aí pousando de filósofo e espalhando sua coproverborragia.
    No Jornal da Cultura, é inacreditável que ele ainda seja comentarista. Fala como se soubesse todos os assuntos, não acrescenta nada, só ataca as posições dos outros...
    É revoltante, mas muito cômico também, pois parece que ele se acha muito inteligente.

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