domingo, 5 de fevereiro de 2012

Danilo Gentili e o King Kong albino: racismo cult?

No Facebook, começou a circular um texto, para mim até então desconhecido, do polêmico humorista Danilo Gentili.

Tudo começou com o tweet:

King Kong, um macaco que, depois que vai para a cidade e fica famoso, pega uma loira. Quem ele acha que é? Jogador de futebol?

Após acusações de racismo em razão dessa declaração, ele tentou justificar e disse: “Alguém pode me dar uma explicação razoável por que posso chamar gay de veado, gordo de baleia, branco de lagartixa, mas nunca um negro de macaco?” 

A coproverborragia (acabei de criar: é expelir fezes pela boca) já começa fedendo muito: você só pode chamar um gay de veado ou um gordo de baleia se você não tiver intenção de humilhar ou tiver uma relação íntima (parentesco, amizade) com o mesmo, do contrário - e isso não é o que se vê nas piadas dele e de tantos outros - é preconceito.


Por que algumas piadas que "tiram onda" com certas características das pessoas são engraçadas e outras não? Apostar uma corrida com um cara sem pernas tem graça? Chamar um portador da Síndrome de Down de mongol tem graça? Dar uma revista Playboy para um deficiente visual tem graça?

Antes, era engraçado fazer piada com judeus, com negros/pardos, com filho de mãe solteira, mas a sociedade evoluiu e percebeu quão estúpido é fazer piada em cima de algo que só humilha e menospreza as pessoas. 


Será que para esses humoristas só existe humor quando se ri do outro?


O fato de ainda hoje se fazer piadas homofóbicas ou com gordos não justifica a piada com o King Kong e tampouco só por ser piada faz disso algo aceitável.

“Na piada do King Kong, não disse a cor do jogador. Disse que a loira saiu com o cara porque é famoso. A cabeça de vocês é que têm preconceito.”

Sinceramente, não lembro de alguma versão de King Kong com um gorila gigante e albino ou, sei lá, jogadores de futebol negros albinos que "peguem" loiras.


(Snowflake, o King Kong das neves)


Depois, num acesso de brilhantismo intelectual de mais pose que conteúdo, ele nos presenteou com o texto "Um post racista":

1. Dizer que sou da raça negra não quer dizer que acho que somos que nem cachorros. Se raça não existe do ponto de vista biológico, infelizmente na realidade sociológica é um fato: as pessoas assim se identificam e, pior, discriminam com base nessa classificação.

Se os movimentos contra discriminação reagem usando o termo "raça" é porque assim as coisas são colocadas por quem discrimina. Um movimento antidiscriminação racista não diz que a raça negra é melhor, mas sim que ela é igual à branca e merece o mesmo respeito e consideração.


Sobre esse ponto, pergunto que tipo de inspiração intelectual levou Gentili a concluir que o simples fato de acreditar em raças leva, necessariamente, a acreditar que há uma raça melhor/pior do que a outra. O movimento contra o racismo "acredita" no conceito de raça e trabalha para que as discriminações nela baseadas acabem; quem acredita que há uma raça melhor/pior do que a outra é racista e só.




2. Se um cara diz que tem orgulho de ser negro/gay/ateu/judeu, ele não quer dizer que é melhor que um branco/hétero/religioso/não-judeu, mas sim que tem orgulho de ser quem é, apesar do preconceito e discriminação que sofre.

3. O bullying escolar ("girafa", "branquelo azedo", "baleia", "quatro olhos", "mulherzinha") é, segundo uma pesquisa recente, a 3ª maior causa de mortalidade nesta faixa etária e é também o responsável por cerca de 19 mil tentativas de suicídios ao ano apenas nos Estados Unidos.

A pesquisa também revelou que 19% dos alunos entrevistados pensaram em se suicidar; 15% traçaram estratégias para cometer o suicídio; 8,8% executaram os planos suicidas e foram interrompidos por outrem e, 2,6% foi a porcentagem das tentativas sérias o bastante que exigiram intervenções e acompanhamento médicos permanentes.

Ser engraçado para alguns não faz disso algo moralmente aceitável.

4. "Quando queremos muito ofender e atacar alguém, por motivos desconhecidos, não xingamos diretamente a pessoa, e sim a mãe dela. Posso afirmar aqui então que Darwin foi o maior racista da história por dizer que eu vim do macaco?"

Darwin NUNCA disse que viemos de um macaco, mas sim que os macacos e nós humanos temos um ancestral em comum. Começo a pensar que essa informação o Gentili deve ter pego na Desciclopédia.

4. Palavras não resumem seu significados ao que está no dicionários e nem vivem soltas pairando sobre as cabeças das pessoas.

O termo preto ou negro ou afrodescendente ou qualquer outro será racista quando você também tiver a intenção de humilhar/ofender a quem assim se refere. Há caso em que até pode não haver essa intenção racista, mas da frase acaba sendo possível interpretá-la como tal -e foi este o caso do tweet no início do post.

Se o Gentili fosse meu amigo e chegasse até mim com a frase “E aí PRETO, senta aqui e toma uma cerveja comigo!”, ele não seria racista. Por quê? Não, pois não teve a intenção de humilhar/ofender.


Chamar um negro de macaco não é engraçado porque alimenta o racismo cínico do brasileiro.


O mesmo racismo que motivou a prisão, com direito socos e pontapés, de dois jovens africanos que se dirigiam, de ônibus, à Policia Federal, em Porto Alegre, para regularizarem suas situações no Brasil suspeitos porque usavam um tênis de marca, que faz com que metade dos moradores de favelas cariocas seja de negros, mas que estes sejam apenas 7% nos bairros ricos, ou o alarmante fato de que a cada três homicídios, dois tem negros como vítimas.


Se imagens valem mais que mil palavras...



5. Os politicamente corretos acham que são como o Superman, o cara dotado de dons superiores, que vai defender os fracos, oprimidos e impotentes. E acredite: isso é racismo, pois transmite a ideia de superioridade que essas pessoas sentem de si em relação aos seus “defendidos”.


Não, nós do movimento antidiscriminação não nos achamos superiores. Somos apenas indignados com essas situações que tanto mal trazem a todos nós e não só às vítimas de preconceito.


6. O fato de que africanos vendiam africanos como escravos soa como deboche. Não explica ou justifica ou minimiza a barbaridade que foi o regime de escravidão no Brasil.

7. Se você acha que vai impor respeito me obrigando a usar o termo “negro” ou “afrodescendente”, tudo bem, eu posso fazer isso só pra agradar.


O problema do racismo (e do machismo, da homofobia, do antissemitismo, da xenofobia) não está tanto nas palavras em si, mas nas circunstâncias ou motivação com as quais ela aparece.


E mais uma vez aparece a crítica ao "politicamente correto". Basta mencionar esse termo para quem o usa achar que liquidou a discussão, como se politicamente correto fosse "um ser com vontade própria, um movimento, um sujeito dotado de consciência. (...) ele é apenas isto: um sintagma sem referente, um balão de ensaio,uma cortina de fumaça" que esconde o preconceito latente de um perfeito imbecil politicamente incorreto.


Ser politicamente correto é evitar que a dignidade humana das pessoas seja menosprezada, ridicularizada em nome de um  pretenso direito absoluto de fazer piadas de tudo e todos... É, no fundo, como eu gostaria que se referissem a mim ou a algum ente querido meu.


Se você é a favor de um direito absoluto a fazer piada de tudo e de todos, nem que você ou algum parente/amigo seu ou você própria seja a vítima, é direito seu, mas não queira impor essa sua postura à sociedade, que já demonstrou não aceitar esse "humor" e por isso mesmo tem leis para puni-lo quando excede certos limites.