sábado, 14 de setembro de 2013

Suicídio de Champignon: a hipocrisia nossa de cada dia.

Sempre que a mídia noticia sobre um suicídio, preparo meus ouvidos e olhos para escutar e ler todo tipo de asneira do senso comum.


Com o suicídio do músico Champignon não foi diferente. Li a notícia e fui fisgado pelas declarações em maio deste ano do próprio Champignon sobre a morte de seus amigos e também músicos Chorão (cuja causa mortis foi overdose de cocaína)  e de Peu Gomes (que cometeu suicídio):
"Os dois perderam a fé. Quando perdem a fé, perdem a vontade de viver. Foi mais um dia muito triste"; "Eu acho que as pessoas, em algum momento da vida, perdem a fé. Independentemente se morrem por droga, ou enforcadas. Se perdem a vida sem culpa de ninguém, acredito que em algum momento perderam a fé".




Não faço aqui uma análise que um psicólogo faria, sou leigo, mas minha observação parte de algumas leituras e reflexões sobre o tema - opiniões às quais, tenho certeza, qualquer um minimamente disposto a pensar seriamente, deveria chegar. 

Não quero me enveredar pela ideia de fé ou falta dela - trato disso mais à frente. O que me interessa é como o Champignon, ao julgar seus dois amigos (especialmente o Peu Gomes), reproduziu o mesmo discurso tolo de que hoje é vítima: suicídio é coisa de gente fraca.

O suicídio é um tabu. Todo mundo se incomoda profundamente com o tema, mas falta franqueza para se discuti-lo abertamente - você sabia que Santos Dumont, por exemplo, se suicidou? O editorial da Folha de São Paulo informa que: em 2011, segundo o Datasus, 9.852 brasileiros se mataram - número que pode ser maior por conta da subnotificação; cerca de 90% dos suicídio, segundo vários estudos, está associada a transtornos mentais tratáveis, sobretudo estados depressivos e dependências químicas. Países ricos têm altos índices de suicídio - o que indica que felicidade não é sinônimo de riqueza material; e mesmo nos país mais "felizes" o índice de suicídio é alto.

Será mesmo suicídio algo que só "gente fraca" comete? Não, definitivamente não. Ninguém está a salvo de ter pensamentos suicidas e nem de tirar cabo da própria vida. E isso por um motivo simples: todos nós estamos sujeitos a acontecimentos que podem afetar nosso equilíbrio psicológico; alguns de nós apresentam pré-disposição genética à depressão e, consequentemente, ao suicídio.

A hipocrisia e imbecilidade (fruto da ignorância) em torno do suicídio é a mesma que existe em reação ao bullying e consumo de drogas. É costume ouvir "Sofri bullying na escola e nem por isso sou traumatizado": que bom, mas isso foi COM VOCÊ, não queira queira transportar sua reação para outros "infinitos particulares" das outras pessoas. Wellington Menezes de Oliveira não teve condições de superar o bullying e cometeu o Massacre de Realengo e tantos outros casos de vítimas de bullying, mesmo sem os problemas psicológicos desse atirador, recorrem justamente ao suicídio por não suportarem a vida que vivem.  Exatamente por isso não me admirei ter lido declaração da irmã de Champignon que "ele estava no limite".

"Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é" (Caetano Veloso) e só a própria pessoa pra ter dimensão do quanto sofre. A ajuda profissional para superar essa angústia de tirar a própria vida é essencial - e o que o suicida quer acabar é com o sofrimento, não exatamente com a vida em si. A pior atitude que se pode ter com relação a quem tentou suicídio ou já o concretizou é julgá-lo.

Senso comum se alimenta da ideia de "gente fraca" porque simplesmente tem preconceito com doenças mentais e então não buscam ajuda ou quando buscam já é tarde demais. Quantas vezes não já ouvimos dizer que depressão ou outros problemas do tipo é falta de "uma pia cheia de louça suja pra lavar"?

Eu não poderia deixar de comentar sobre um grupo que destila hipocrisia com uma auréola angelical sobre a cabeça: certos cristãos, com base em algumas passagens bíblicas, condenam à queimação eterna no inferno a alma dos suicidas. Veja um exemplo nos comentários à notícia referente a Champignon: 


Sou ateu e, como tantos outros amigos e amigas ateus, "falta" (inexistência) de deus NUNCA foi motivo de angústia ou de pensar em suicídio. Falta de deus não serve de argumento pra explicar.

Eu me pergunto: que tipo de deus, poço de amor e compreensão, condenaria a inferno a alma de pessoas que, sob nenhuma hipótese, tem qualquer controle sobre a depressão que sofrem e que as levam ao suicídio, sem falar em outros motivos como stress, envelhecimento (idosos têm a maior taxa de suicídios), perda de entes queridos, dependência de drogas ou álcool, trauma emocional, doença física grave?

Pra finalizar, insisto com relação a suicídio: não pense o mundo a partir de si, o mundo não se resume a você, leve em consideração o outro, coloque-se no lugar dele, aí então entenderá que a maioria de nossos julgamentos é equivocada, preconceituosa, desumana porque desconsidera o universo num grão de areia que é cada ser humano.

2 comentários:

  1. Não sou ateu mas cristã,me sinto no direito de dizer que Deus ,não tem nada a ver com isso .Minha filha se suicidou à um mês e com certeza o fato dela ter depressão e não se tratar é que fez chegar neste extremo.Que coisa mais antiquada e ignorante dizer que ela está no inferno ou que virou uma estrela e tá me cuidando...odeio pessoas que pervertem a palavra de Deus passando uma mensagem que """FOI DEUS QUE QUIS ASSIM""que horror .O meu Deus, q EU conheço é um Deus de amor.Na hora que ela fez isto ,foi um momento de profunda dor ,desespero e não enxergar que muitos amavam ela incondicionalmente,Ela não conseguiu ver o lado bom da vida.Minha filha estava doente .PONTO FINAL

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  2. OIa, parabéns pela iniciativa de escrever um texto para discutir sobre este tabu. Apesar de ter me interessado pelo texto, não concordei com seus argumentos, pois você tenta livrar os suicidas do estigma da fraqueza e, no entanto, aponta a causa desta ação fonte extrínseca ao suicida a que ele estaria exposto.

    Ao dar crédito ao desequilíbrio psíquico ou fatores genéticos os agentes perdem o poder de decisão sobre suas vidas, ou seja, o desejo de se matar continua vindo de uma "fraqueza", algo que a pessoa não é capaz de controlar, algo que está fora da normalidade. Sim, pode ser uma "fraqueza" em grande parte dos casos, mas, também, pode ser uma decisão lúcida e tomada de maneira lógica por vários motivos e não apenas porque esta pessoa sente que não conseguirá se estabelecer na sociedade de alguma forma. Para mim, é uma decisão como qualquer outra, assim como decidir ir para a esquerda ao invés de ir para a direita. Apenas se torna mais complexa, pois se trata de uma condição protegida pela sociedade e é uma decisão que afeta não só o agente, mas todos aqueles ao seu redor, em todo o mundo a que ele está inserido.

    Portanto, penso que é cabível uma pessoa que goza plenamente de sua capacidade mental suicidar-se. Creio que é uma premissa da maior parte dos seres vivos escolher pela vida, estamos programados para essa escolha e concordo com isso, contudo não podemos julgar tal decisão e nisso concordo com você.

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